Tive ao meu serviço um Peugeot 308 SW 2.0 HDi durante muito quilómetro de estrada em trabalho e em diversas horas de ponta.

Este mês fui agraciado pelo Autohoje com uma carrinha Peugeot 308, com 2000 cc e 150 cv, Diesel, capaz de fazer ruir os últimos cacos do meu preconceito contra carrinhas. Na verdade, apreciei tanto esta maravilha mecânica e seu volante pequenino, que estava capaz de fazer filhos. Lamentavelmente, só tenho acesso a estes automóveis durante uma semana e não por 9 meses. Outro galo pariria. Perdão, cantaria. De todo o modo, foi um daqueles bólides que pude usufruir durante muitos quilómetros em trabalho, o que permitiu permanecer várias horas de ponta. A única alínea das ‘pontas’ que é mal vista, e justamente. As outras são, a saber: “tecnologia de ponta” e aquele género de “ponta” que permite, completa a travessia dos supracitados meses de gestação, uma mais digna ocupação dum 308 deste calibre. Assim, dedico esta crónica a todo o tipo de condutores com quem me tenho cruzado nessas difíceis horas do pára-arranca: a) Os cantores sem duche: quiçá por se terem levantado tarde demais para o duche, certamente por falta de coragem para atacar um casting do Factor X, os CSD são aqueles condutores que aproveitam a hora de ponta para cantar em altos berros no interior da viatura como se: 1) o mundo fosse acabar; 2) os vidros não fossem transparentes. Fazem amiúde figura de urso e, assumidamente, este humilde escriba integra a categoria;

b) Os joachim lows: se os anteriores não tiverem tempo para tomar banho, estes segundos falharam a hora do pequeno-almoço. Assim, e tal como o seleccionador germânico de futebol – seu homónimo – estes indivíduos aproveitam o trânsito parado para reciclar excrescências corporais e, docemente, partir para a ingestão das próprias. Numa homenagem às nossas ancestrais raízes primatas, comem ‘macacos’; c) Os pré-suicidas: para este tipo de pessoa ao volante, a hora de ponta equivale ao Armagedão, a uma goleada sofrida pelo seu clube, ao fim dum casamento de 30 anos. Contemplam a estrada de olhar vazio e semblante carregado tentando uma dramática decisão: comprimidos, corda ou pistola?; d) Os fernando-mendistas: verdadeiros multi-taskers, ligam o Bluetooth, trazem a lancheira e reúnem em tele-conferência enquanto comem restos da semana passada. Para eles, a hora de ponta não é um aborrecimento mas uma oportunidade; e) Os engata-rodas: na hora de ponta, lançam olhares concupiscentes às moças bonitas paradas na fila do lado. Acreditam piamente, qual trolha de grande empreitada, que um piropo lascivo fará a donzela trocar tudo, veículo incluído, por uma rapidinha no banco de trás. Morrerão ignorantes, mas felizes; f) Os carteiristas: calma, a única coisa que roubam é tempo. São pessoas que se lembram, à última da hora, que há algo importantíssimo para retirar das carteiras ou malas. Lamentavelmente, fazem-no esquecendo-se por vezes de accionar os travões; g) Os leitores-compulsivos: ele é o Destak, o jornal desportivo, é o sms, ou é um livro de Rebelo Pinto. Podia ser um pacote de leite e respectivas indicações calóricas. Tudo lhes serve para pôr a leitura em dia. Acabam muitas vezes como os condutores da alínea anterior. Assim prolongando a hora de ponta. Se algum destes sub-tipos de condutor o inferniza particularmente, faça o leitor o obséquio de terminar o texto, com o palavrão que mais lhe aprouver:______________.

 

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