“Há mails que vêm por bem”

Troca de correspondência entre dois amigos, dois comediantes, dois tipos que não percebem pevide de automóveis:

António Raminhos e Luís Filipe Borges

Caro Borges,

Tudo bem? Finalmente. Depois de andar a pesquisar por todo esse mercado, finalmente consegui uma massagem com final feliz. Ao contrário do que esperava, não foi com uma chinesa, nem com uma tailandesa, há quem experimente com uma portuguesa e eu foi mesmo com uma francesa. Com uma Renault.

Não penses já em coisas. Não estou a falar desses sítios estranhos onde já fomos, mas que não podemos mencionar por uma questão de ética... e de esposas... e de sogras. Aliás, nunca fomos! Que fique registado! É só uma chalaça! Uma brincadeira. Pronto, agora as pessoas vão ficar mesmo a pensar que fomos. É como o desejo secreto que tenho de estar num momento de intimidade com a minha mulher e chamar o nome de outra qualquer. Conscientemente. Só para ver a reacção dela. Mas tenho medo, porque acho que a reacção seria uma espécie de roleta russa.

A massagem com final feliz, apesar de não ter saído de uma secção de classificados poderia ter um nome parecido. Ora lê: Massagem Espace Initiale. Se há casas por aí que são um espaço de deboche, a nova Renault Espace Initiale é um antro de conforto e tecnologia, com bancos que te fazem três tipos de massagem - o que é muito útil para viagens longas - e um ecrã táctil que dá para controlar tudo. E quando digo tudo, é tudo! Até a suspensão. Vá, quase tudo, ainda falta inventar um ecrã que baixe o volume dos miúdos. Mas se quiseres podes fazer como eu. Sentei as catraias nos dois bancos rebatíveis lá atrás e coloquei a música bem alto! É quase como se eles não existissem! Inclusivamente aconteceu ir almoçar e só a meio reparei que as miúdas ficaram lá dentro! Todos nós gostamos de fazer contas e é um modelo até poupado. Fui de Lisboa a Viana do Castelo com uma média de 5,5 l/100 km neste carro. Carro não, monovolume! Desculpa! Segundo a Renault, agora é mais do segmento de crossover. E é capaz de ser verdade. Antes, quem tinha uma monovolume, das duas uma: ou trabalhava na venda a retalho ou já era pai de, pelo menos, três crianças. E os monovolumes topavam-se a léguas. Porquê? Porque eram feias à brava. Eram uma espécie de pão de forma mas que ficou achatado no fundo do saco e já com bolor.

Agora não! O modelo que usei tem jantes 19’’, um tom metalizado que parece mudar de cor consoante o sol, linhas mais agressivas, sistema áudio Bose. Tanto podia ser uma carrinha familiar, como de um grupo de hip-hop! Ou seja, tudo aqui resulta num enorme final feliz e tenho de voltar a experimentar. A Renault, não os salões de massagens... até porque esses nunca experimentei. Que fique claro!

António RAMINHOS

 

Caro Sr. Ramos,

Apreciei sobremaneira a nota sobre como, antigamente, os monovolumes eram veículos próprios de quem já era progenitor de três rebentos… Fez-me lembrar alguém. A propósito, já comprei as vossas prendas de Natal. Não digo a tua para não estragar a surpresa mas, para a Catarina, adquiri um requintado, raríssimo, vintage, cinto de castidade.

Nesses tempos havia de facto viaturas especialmente apropriadas para indivíduos que não tinham “perder a virgindade” no seu top de prioridades. Hoje, como dizes, tudo mudou. Por exemplo, a mim calhou o Seat Ateca 4Drive, um SUV cuja sigla significa, claramente, Sacana Único Variado. Por que é Único e simultaneamente Variado, capaz de se adaptar a qualquer registo de condutor, e isto faz dele – para a concorrência – um Sacana.

Ora vejamos os estilos de condução. Eco, Normal, Sport, Individual, Offroad e Snow:

- Eco: para condutores preocupados com o aquecimento global e o meio-ambiente. Gente boa, pura e educada. Gente que está lixada agora que o Trump foi eleito.

- Normal: malta que precisa de ir do ponto A ao ponto B de forma eficiente. Profissionais cumpridores, contribuintes rigorosos, cidadãos exemplares. Pessoas que passam 5 horas por dia dentro do carro a pensar nas diversas formas em como gostariam de atropelar Fernando Medina, se lhes fosse dada a chance.

- Sport: com um simples girar de botão, todo o Ateca se transforma num dínamo glutão. Eis de repente o condutor transformado em playboy transbordante de confiança e sedutor como um galã latino. É a costela castelhana, a raiz da Seat, a originar diálogos como este junto de portageiras jovens e incautas:

- Bom dia…

- Hola cariño… te gusta mi coche? A mi me encanta!

- …Classe?

- Muchíssima! Quieres ver mi classe? …1! Toma! Oh si, classe 1!

- Individual: conforto, calor, robustez, sistema de som de excelência, ambiente propício. Cadeiras reclináveis, espaço, solidão. Depois quando acabares é só conduzir.

- Offroad: ideal para aventureiros, pessoas que olham os obstáculos como oportunidades e que não temem muros nem problemas, corajosos do tráfego inóspito. Em suma, perfeito para enfrentar as obras de Lisboa.

- Snow: para todo aquele condutor que nunca foi à neve mas quer convencer a Sofia Cláudia da Contabilidade do contrário, durante uma boleia para um fim-de-semana de team building. É nunca girar o botão e seguir conduzindo até ela reparar. Ou até estarem atolados de ladecos numa valeta.

E pronto. Vou entregar a croniqueta. Estou é sem net. Tenho de levar isto em mão à Autohoje. Uma pequena viagem entre o Saldanha e Algés. Devo chegar em Janeiro.

Luís Filipe BORGES

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