Com o habitual colaborador “Boinas” a banhos no Pacífico... ou em Albufeira, largaram-me à fera. Ao volante do Jaguar F-Type S Coupé AWD, tentei domar os 380 cavalos e lidar com a inveja de outros tantos equídeos, que comigo se cruzaram nesta aventura aos comandos de um carro que custa mais do que a minha casa.

Há males que vêm por bem. A ausência de Luís Filipe Borges deste espaço tem proporcionado a oportunidade de experimentar máquinas, que não me passariam pelas mãos de outro modo. Sou um português normal. A minha vida de condutor começou com um Opel Corsa de 91, carro que nunca me deixou mal e que até tinha mais potencialidades do que muitos carros hoje em dia. Não são todas as viaturas que nos permitem criar cogumelos no seu interior. Depois passei para um Opel Corsa de 2002 e ainda hoje tenho um Honda Jazz, de 2008, à beira dos 200 mil quilómetros e a gasolina. Nenhum deles me desiludiu. São carros utilitários, do dia-a-dia. Que são escolhidos por uma razão prática e funcional. Porque são baratos, espaçosos, económicos e, todos eles, porque a nossa mulher disse que podia ser.

Depois vem-me parar às mãos um Jaguar F-Type S AWD. Um carro que não se insere em nenhuma destas categorias, mas que até me faz lembrar o meu avô: bebe tanto como ele. É um desportivo de dois lugares, cómodo, luxuoso, mas sem muito espaço e com um mala pequena. Sim, porque quem tem um Jaguar não vai de férias de Jaguar, vai de jacto!

Há veículos que se inserem na categoria dos “porque sim”. São carros comprados por quem tem a possibilidade de o fazer e que os adquirem apenas… “porque sim”. Pelo prazer de conduzir, da velocidade, beleza ou de ostentação. E não é fácil ostentar! Parar com um Jaguar F-Type num semáforo é ter dezenas de olhares para dentro do carro. Primeiro de admiração e depois de desilusão, porque em vez de encontrarem um jogador de futebol ou uma vedeta da música, está lá o Raminhos. E logo a seguir vem a raiva: “estes gajos da televisão!” Eu próprio me senti incomodado e impelido a dizer às pessoas: “olhe que não é meu! É emprestado!”.

E depois era arrancar a todo o gás. O que não é difícil. Vai dos 0-100 km/h em 5,1 segundos! Na página da Jaguar, a descrição inclui pormenores como “o F-TYPE S AWD disponibiliza performance com estabilidade total, proporcionando um comportamento excepcional (…) também uma carroçaria extremamente rígida para um comportamento excepcional e sensibilidade às solicitações do condutor.” Na verdade, podiam ter escrito apenas “ Jaguar F-TYPE… anda como ò “#!$T2%!$”

Andar devagar ou estar parado é chamar ainda mais as atenções com um roncar imenso do motor. Por isso andei. Andei como se fosse a última vez, até porque era! E é curioso como as emoções da velocidade são inerentes ao ser humano. Nesse dia, e com a possibilidade de adaptar uma cadeira ao lugar do pendura, levei a minha filha de 5 anos. Não só os olhos arregalavam cada vez que o carro arrancava, como me pedia “mais pai, mais!” Curiosa foi a associação que fez: “Pai, este carro parece daqueles de roubar coisas!”

Como é que uma miúda de 5 anos sabe que um carro destes pode servir para assaltos de alto gabarito ao melhor estilo de Hollywood? Nunca viu o Velocidade Furiosa e o mais perto que tem na televisão é o Noddy. A única vantagem do carro do Noddy é que deve gastar menos.

 

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