“Há mails que vêm por bem”

Troca de correspondência entre dois amigos, dois comediantes, dois gajos que não percebem pevide de automóveis:

António Raminhos e Luís Filipe Borges.

Caro Borges,

Como estás? Eu estou vivo. Sei que, provavelmente, estarias à espera de um “está tudo bem!” ou “cá andamos!”, mas fico-me pelo estou vivo e calmamente sentado ao volante de um Hyundai Tucson. E ainda bem! Porquê? Porque há umas semanas estive sentado num outro Hyundai, no i20 WRC, do enorme Thierry Neuville e para fazer o famoso salto de Fafe.

Já conhecia a famosa Madalena de Fafe, que também gosta de saltos, mas num outro registo. Agora o salto de Fafe só conhecia da televisão e do rali de Portugal. Deixa-me dizer-te que estar no salto de Fafe é mil vezes melhor do que estar com a Madalena de Fafe. Foram apenas quatro minutos de troço que fiz ao lado do Neuville, mas foram quatro minutos de pura adrenalina. Vi a morte passar-me à frente dos olhos várias vezes e a cada curva, mas a morte não tem velocidade para o piloto belga. Só estive com duas pessoas que conseguem fazer curvas a uns bons 80 km/h e já sem estrada pela frente: uma é o Neuville outra é o meu pai, mas esse é porque adormece a meio.

Eu vivo no campo e a única coisa que eu pensava era: “quem me dera poder ir buscar as miúdas assim com o Neuville”. Ir às compras? “Vou eu querida!”, voltava para casa e dizia: “Ah... esqueci-me de comprar... snuffles”.  E lá ia eu outra vez.

E o salto? O verdadeiro salto de Fafe. Eu que a única coisa que tinha saltado assim mais alto tinha sido uma lomba com um Fiat Uno, porque não a vi ao fundo da rua. Teve alguma emoção, mas mais pela expectativa de saber se tinha rebentado com o carro todo ou não.

Sempre fui apaixonado por rali, desde o tempo do saudoso Collin Mcrae, mas poder participar com um dos melhores é dar todo um outro valor à destreza de quem é piloto. E olha que nós temos muitos e bons e que o fazem quase por amor à camisola! Arrisco-me a dizer e, aliás, disse ao Thierry, que aquela experiência tinha sido melhor do que sexo! Ele riu-se e depois disse-me algo que faz muito sentido: “Bom... eu não sei é o que é que a tua mulher vai pensar disso!”.

Mas eu sei o que pensar e o que dizer! Da próxima vez que estiver num momento de amor com a minha mulher e ela exclamar “Gostei muito!” Eu não tenho dúvidas: “Gostaste? Havias de experimentar o salto de Fafe!”.

António RAMINHOS

 

Caro compincha,

que inveja boa dessa aventura com o craque belga. Até hoje, a minha maior dança com a adrenalina no que diz respeito ao desporto motorizado terá sido há uns 18 anos no kartódromo de Évora. Chegada na 6ª à noite à cidade património mundial: jantarada e copos. Sábado de passeio com amigos com escalas regulares para imperiais na Praça do Giraldo. À noite: jantarada, copos e - creio - a partilha em ameno convívio de um cigarro que afinal não era bem um cigarro. Duas horas de sono e corrida às 10 da matina de domingo no kartódromo. Resultado, após 3 voltas de aquecimento e duas cronometradas? Vómito. No capacete. Durante uma curva. A chegada à box menos glamourosa da história.

Bom, felizmente cresci e sou hoje um homem sofisticado e maduro. Nunca mais vomitei em capacetes. Retiro-os da cabeça primeiro.

Graças ao Autohoje, tive o privilégio de gozar a vida no comando do auspicioso e novíssimo Audi A5. Mas uma notinha: já andei no Tucson e assino por baixo tudo o que dizes. São verdadeiros amores de Marco Paulo, uma é loura e outra morena mas ambas “tal qual um homem queeeeeeer”.

O A5 é aquele tipo raríssimo de veículo que faz as namoradas detractoras de carros desportivos e descapotáveis dizer algo como: “aaahhh...no caso deste abro uma excepção”. Portanto há razões para manter a esperança. Contra todas as expectativas o impossível pode mesmo acontecer. Por exemplo, Trump. Acredito piamente que Donald Trump ainda vai fazer dos EUA aquilo que eles já foram há muito tempo: uma terra inóspita e deserta onde não vivia ninguém.

Mas estou a divagar. Embora “divagar” se vá ao longe. No Audi é mais “dipressa” que vale a pena. “Dipressa” e “descontraído” mas sobretudo “despreocupado” (ok, vou parar). Sim, é um carro que faz por nós - durante o simples usufruto da sua condução - tanto como uma sessão de yoga acrescida de massagem shiatsu e aspiração de incensos. Liberta-nos do stress e ansiedade. Faz-nos restaurar a fé na humanidade. Isto claro, até sermos picados num qualquer semáforo por um Fiat Punto azul turquesa com labaredas nas jantes e um condutor de sua graça Márcio Sandro.

A coincidência cósmica única desta edição colocou-me como fiel depositário deste triunfo automóvel na mesma altura em que celebrei 20 meses de namorico. Resolvi fazer uma coisa à antiga: tirar um dia para fingir de rico. Carro bonito, paisagens a condizer e uma mariscada daquelas. Qual não é o meu espanto quando chego a casa para apanhar a Sara e ela está entretida a jogar futebol na playstation. Fiquei extasiado de alegria, e sim, dei o Salto de Fifa.

Lá fomos. Trazer o Audi do Guincho para casa é que não foi fácil. Contabilizámos 7 orgasmos ao jantar e creio que ela engravidou do lavagante.

E agora uma frase non-sense (digna da ressaca com que me encontro) para terminar:

“Há 3 maneiras de conduzir o A5 na A2”. Pronto, era só isto. Sim, vou já tomar duche.

Luís Filipe BORGES

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