A Land Rover foi a última vítima de uma virose que anda a atacar as marcas de prestigio. A prova? Basta olhar para o novo Velar.

Quando o Evoque foi apresentado em 2008, na forma do “concept-car” LRX, ninguém queria acreditar que a Land Rover teria a coragem de o produzir assim, tal e qual. Quase dez anos depois, o modelo não só continua a ser um sucesso de vendas, como o seu estilo fez escola na Land Rover. Aos poucos, a Range Rover foi criando a sua gama de modelos, com o Range Rover (o modelo), o Range Rover Sport e agora o Velar, que fica acima do Evoque e abaixo do Sport. A estrutura começa a fazer lembrar a das marcas alemãs que operam no mercado dos SUV, cobrindo cada vez mais níveis de preço e tamanhos. Então qual é o problema?...

Subitamente, reparo que a frescura do desenho original do Evoque se começa a desgastar, ao olhar para os outros modelos da gama, todos demasiado parecidos. É verdade: também a Range Rover parece ter sido atacada pelo vírus da clonagem. A prova está no Velar e na quantidade de interessados pelos automóveis que me têm perguntado: “afinal o Velar é rival de que modelos?” A minha resposta é que se posiciona ao lado do X5… mas também do X3. A verdade é que, mesmo dentro da Land Rover, ainda há quem tenhas dúvidas. De uma coisa parecem certos, que será a atração pela novidade a ditar o seu sucesso. Mas se tivesse um estilo mais diferenciado, calculo que a dúvida não existiria.

Mas será que, por ser tão parecido com os outros modelos da marca, isso poderá confundir os potenciais compradores? A questão não tem nada de novo, esta necessidade que as marcas de automóveis têm de fazer os seus modelos parecerem-se todos uns com os outros, a face de família, como eles dizem, tem muito que se lhe diga. Nós, os jornalistas e os nossos leitores, sempre ávidos de testemunhar a próxima revolução, seja na técnica seja no estilo, condenamos aquilo a que os meus colegas ingleses chamam a estratégia das matrioscas, as bonecas russas que são todas iguais, só variam o tamanho. Mas os compradores nem sempre veem as coisas da mesma maneira.

A Audi é o alvo de estimação de quem ataca esta estratégia, mas basta perguntar à marca a razão de não ter feito uma rotura na sua grelha “single frame”, vagamente inspirada nos Auto Union de Grande Prémio dos anos trinta, para perceber a ideia. Aliás, nem é preciso perguntar nada, basta ver o gráfico de vendas da marca alemã para ver a razão desta prática. Até a BMW, que nos anos oitenta e noventa se destacava por fazer evoluir o estilo dos seus modelos de geração para geração, agora mudou de atitude, ao ponto de, por vezes, ser difícil distinguir entre a geração mais recente e a mais antiga de alguns das suas séries. A melhor resposta que obtive até hoje, à pergunta “porque razão esta estratégia funciona?” foi esta: “quando um comprador aspira a comprar um modelo de uma marca de prestígio e finalmente reúne as condições para o fazer, quer que o seu carro de sonho se pareça com aquilo que ambicionava. Se vir bem, o mesmo se aplica a muitos produtos de luxo.” Isto explica uma certa estagnação no desenho, mas não explica a semelhança entre todos os modelos de uma marca. Ian Callum, o famoso estilista da Jaguar, respondeu assim às críticas que acusavam o novo XF de ser demasiado parecido com o XE: “a nossa marca precisa de se impor com uma imagem, por exemplo nos EUA, algumas pessoas ainda não sabem sequer o que é um Jaguar.” Percebe-se que uma marca à procura de um lugar no mercado, tenha que insistir num tema de estilo, mas isso é mais difícil de perceber, quando a marca está no mercado há mais tempo.

Os compradores são por vezes difíceis de entender, mas há alguns comportamentos que indicam estar esta estratégia das matrioscas realmente certa. Dou um exemplo e a minha interpretação. Repare na quantidade de SUV da BMW que circulam na estrada com um dos poucos opcionais de custo zero da marca, a ausência de designação do modelo na tampa da mala. Que razões levam a esta escolha? Por um lado, os que guiam um X1, talvez queiram deixar a dúvida de estarem a bordo de um X3, para ganharem um estatuto mais alto. Por outro lado, os que guiam um X5, talvez queiram exatamente o oposto, ser confundidos com um X3, para tentarem passar despercebidos. Os três são tão parecidos que, por vezes, isso resulta.

Do lado da Land Rover, é o seu líder de estilo, Gerry McGovern a justificar o desenho do Velar como sendo modernista, de formas simples e com elementos que têm uma função, não são apenas decorativos. Uma explicação demasiado generalista para o caso em questão.

Mas há marcas que começam a preocupar-se em diversificar o estilo entre os seus modelos, sobretudo para evitar o desgaste face aos clientes mais fiéis e evitar que fujam para outras marcas, à procura de algo de diferente. Por mim, só posso aplaudir essa nova abordagem, assim que a consiga ver… É que me irrita chegar ao parque de algumas marcas, para levantar um carro de teste e ter que carregar no comando à distância para saber qual é o que vou trazer.

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