Sandro Meda

Cara e coroa

Brotou mais uma fonte para discórdia dos frequentadores lisboetas: o plano para transformar a Segunda Circular numa avenida verdejante, mais lenta, com menos automóveis em circulação, com passeios e jardins. Não é difícil perceber que uma ideia tão radical só pode extremar lados, como faces de uma moeda. De um lado adivinham-se os milhares de revoltados que a atravessam diariamente para chegarem ao trabalho, para evitarem as imensas portagens da CREL ou porque, simplesmente, esta é a única forma de ligação e acesso a vários pontos fundamentais da capital.

Na outra face estarão os sorrisos, por exemplo, dos habitantes da zona, dos andares de luxo de uma ponta ou das barracas da outra, que agradecerão a vista de calçada ajardinada ao estilo do “Paseo de la Castellana”; que, parece, é a fonte de inspiração de alguns dos defensores desta reencarnação para Segunda Circular, mesmo que à Castelhana tenham sido acrescentadas faixas, que não tenha árvores no meio mas sim nos flancos, como poderia haver na Segunda Circular se não tivessem permitido construir até à berma; e que esta avenida espanhola não conheça a função de atravessar a cidade. Para isso, os madrilenos têm dezenas de autoestradas M30, 40, 45 e 50 ligadas por vias rápidas A e R.

Se o objetivo é desviar o trânsito da cidade, é fundamental rever as tarifas da CREL, o único verdadeiro “anel” alternativo à Segunda Circular; e se o verde não é prioridade demagógica, antes de procurarem as árvores que crescem 12 metros em dois anos - a julgar pelo otimismo citado pelo Expresso - seria mais ecológico repor as centenas de árvores arrasadas no complexo do Jamor para a construção de mais campos de futebol.

No que resta, o importante seria não ficar a ideia, mais uma vez, de que na governação qualquer face serve, desde que renda dinheiro.

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