Felizmente não fazem carros

Conduzir é um prazer que não nego, não evito, nem encurto, por mais fúteis que sejam as voltas. Mas desta vez nem foi o caso, embora pareça. Há dias, porque a mercearia perto de casa já tinha fechado - sim, tento fomentar o pequeno comércio local - fui a uma dessas grandes superfícies comprar um pacote de manteiga, missão aparentemente simples. Não tinham. Quer dizer, tinham, mas apenas a marca deles, em diversas variedades, cores, feitios e formas, mas sempre na dita marca branca. Como nunca encontrei vacas no estacionamento, para mim não percebem nada de manteiga. Por isso fui a outra grande superfície, onde encontrei a mesma oferta: a deles. Só à terceira, depois de mais uns quilómetros, consegui comprar - numa superfície já não assim tão grande e, curiosamente, nem sequer de capitais nacionais - um pacote de manteiga com a marca de quem percebe de manteiga.

Quando começou a crise, há já não sei quantos anos, fizeram-se reportagens mostrando o contentamento dos portugueses na adesão em massa aos produtos brancos, teoricamente feitos pelos mesmos especialistas, mas a preços mais contidos. Os consumidores puderam escolher. E escolheram o melhor preço para a “mesma” qualidade. Os consumidores, felizes, começaram a não sentir falta das marcas e a contentarem-se, todos, com o mesmo. Qualquer dia não terão escolha. E aí terão apenas a qualidade que os “brancos” lhe quiserem dar. Os monopólios, às vezes estrategicamente repartidos para disfarçar, têm essa característica: eliminam a concorrência e depois impõem as regras de mercado que mais lhes convêm. É assim com os partidos; com os combustíveis e poderá ser assim até com as manteigas. Felizmente, não fazem automóveis e escolha é o que ainda não falta, e cada vez mais diversificada. 

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