Sofistique-se a resiliência

A crise atrai, gera e desculpa a incúria. Na essência, o desleixe com o próprio e, a partir daí, com todos e com tudo. Porque faz sentido, aqui, criar um paralelo com o mundo automóvel, lembre-se como tratou o seu carro nas primeiras semanas, mesmo se fosse um usado, e agora, uns anos depois, que já é velho. No início, escolhemos os lugares de estacionamento a pensar no desleixo dos outros; choramos o primeiro risco; fazemos vistorias à pintura antes de cada viagem e reparamos nos sapatos de quem entra na esperança que não estejam demasiado sujos. Com o tempo, a estima baixa e, na medida inversa, aumenta o desrespeito por aquilo e por aqueles que nos rodeiam. Mais ainda quando, seguindo a mesma lógica, os exemplos dos que movem a sociedade deixam de servir de exemplo.

Quando alguém entra, ou é obrigado a estar, em modo de sobrevivência, a sofisticação não só passa a ter um papel secundário como também é vista nos outros como algo supérfluo. Mas é a sofisticação, no sentido mais desenvolvido e apurado de qualquer coisa que promove a excelência, o rigor e a busca da perfeição. As prioridades podem ser relativizadas, mas não podem justificar a mediocridade. Um parque automóvel velho e sujo porque é preciso compensar a balança comercial; autarcas que se permitem corruptos porque fizeram alguma coisa pelos munícipes; agentes da autoridade que relegam a faceta da prevenção e educação porque é mais importante que as suas ações sustentem a organização; estradas descuidadas porque a rede viária foi mal gerida e dá prejuízo; ministros que “podem” andar sem cinto de segurança porque estão a anunciar mais impostos e cortes... pais que deixam os filhos à solta no carro porque têm contas para pagar.

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